Notícias 03.11.26

Da Tradição Humanista à Inovação Internacional: As Inspirações Pedagógicas do Pueri Domus

AUTOR

Marketing

ASSUNTO

Notícias

TEMPO DE LEITURA

5 min

COMPARTILHE:

“A criança é feita de cem. A criança tem cem linguagens, cem mãos, cem pensamentos, cem modos de pensar, de jogar e de falar...”
— Loris Malaguzzi, educador e fundador da abordagem Reggio Emilia

Escolher a escola ideal para os nossos filhos é uma das decisões mais importantes e afetivas que tomamos em família. Mais do que buscar excelência acadêmica e fluência em um segundo idioma, pais e mães procuram um ambiente onde as crianças sejam genuinamente acolhidas, ouvidas e estimuladas a desenvolver sua autonomia, curiosidade e empatia.

Ao longo de 60 anos de história — desde a nossa fundação em 1966 —, a Escola Bilíngue Pueri Domus tem como compromisso colocar o estudante no centro de toda a experiência escolar. O próprio nome da escola, de origem latina, traduz essa essência: a Casa da Criança.

Mas como essa filosofia se traduz, na prática, no dia a dia das salas de aula, dos ateliês, dos laboratórios e das vivências dos alunos?

Para compartilhar com toda a nossa comunidade os alicerces teóricos e práticos que sustentam o nosso trabalho diário — da Educação Infantil ao Ensino Médio —, iniciamos hoje uma Série Especial de Artigos dedicada às nossas matrizes pedagógicas, com foco especial na consagrada abordagem de Reggio Emilia.

As Grandes Raízes Teóricas: Por que Colocamos o Aluno no Centro?

Muito antes do conceito de 'metodologias ativas' se tornar recorrente na educação contemporânea, o Pueri Domus já nascia contestando o modelo bancário e tradicional — aquele em que o professor deposita conteúdos sobre alunos enfileirados, naquilo que nossos educadores chamam criticamente de 'pedagogia da nuca'.

Nossa arquitetura pedagógica dialoga diretamente com autores clássicos da psicologia do desenvolvimento e da educação crítica:

Lev Vygotsky e o Sociointeracionismo

Acreditamos que o conhecimento não é decorado, mas construído por meio de interações significativas. Na sala de aula, o professor atua como um mediador, criando desafios na medida certa (a chamada Zona de Desenvolvimento Proximal) e promovendo o trabalho colaborativo entre colegas. É na troca de ideias, no debate respeitoso e no contato com diferentes pontos de vista que o pensamento crítico ganha vida.

  • Construção Coletiva: O trabalho em pequenos grupos permite contrapor hipóteses e refinar o raciocínio crítico através do debate respeitoso.

Jean Piaget e o Construtivismo Cognitivo

A criança é uma pesquisadora nata. Inspirados pela epistemologia genética piagetiana, incentivamos os estudantes a formular hipóteses, investigar pistas, testar caminhos e descobrir soluções por conta própria. O aprendizado torna-se duradouro porque nasce da curiosidade genuína da criança.

Henri Wallon e a Indissociabilidade do Afeto e do Intelecto

Para nós, cognição, afeto e movimento são inseparáveis. Uma criança só aprende com plenitude quando se sente segura, valorizada e acolhida emocionalmente pela equipe escolar e pelo grupo de amigos.

Paulo Freire e a Educação Problematizadora

Em consonância com a crítica freireana à educação bancária, a criança não é como uma tábua rasa. Nossos alunos são incentivados a ler o mundo, problematizar fatos e atuar com responsabilidade cívica.

A Potência da Infância: A Inspiração na Abordagem Reggio Emilia

Na Educação Infantil do Pueri Domus, a relação com o conhecimento começa pelo reconhecimento da potência da criança. Nossa proposta para as primeiras infâncias é profundamente inspirada na consagrada abordagem de Reggio Emilia, concebida pelo educador e pedagogo italiano Loris Malaguzzi — uma das filosofias para a infância mais admiradas no mundo.

A abordagem Reggio Emilia é uma filosofia educacional investigativa e comunitária, desenvolvida no norte da Itália, que transformou a educação infantil em proporção mundial, ao colocar a criança como protagonista, produtora de cultura e coconstrutora do próprio conhecimento.

A experiência teve início logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, na cidade de Reggio Emilia, região da Emilia-Romagna. Trabalhadores, camponeses e mães operárias decidiram construir escolas infantis com os próprios recursos, até mesmo aproveitando-se para vender tanques e cavalos deixados para trás pelos alemães, a fim de financiar os primeiros tijolos da escola, por exemplo, de Villa Cella.

O jornalista e pedagogo Loris Malaguzzi juntou-se a esse movimento popular. Compreendeu que a educação daqueles primeiros anos de vida precisava ser democrática, laica e profundamente racional, para evitar a repetição dos regimes autoritários que haviam devastado a Europa. A rede municipal de creches (nidi) e pré-escolas de Reggio Emilia se consolidou a partir dos anos de 1960 e, hoje, é difundida globalmente por meio do centro de pesquisa Reggio Children.

O alicerce conceitual do Reggio Emilia Approach é a sua concepção de infância. A criança nasce com curiosidade inata e em potencial, recursos interpretativos e capacidade de formular teorias sobre o mundo ao seu redor. Ela, por sua vez, não é vista como um adulto incompleto, uma “tábua rasa” ou um recipiente a ser preenchido de conteúdos — como Paulo Freire aponta, aqui no Brasil, em seu conceito de Educação Bancária. O conhecimento não é adquirido de forma isolada nem puramente transmissiva; ele é construído nas interações diárias com pares, adultos e o meio.

Uma das contribuições mais célebres de Malaguzzi é o manifesto poético de que a criança é feita de cem linguagens, mas a escola convencional costuma roubar noventa e nove delas:

A criança é feita de cem.
A criança tem cem linguagens, cem mãos, cem pensamentos,
cem modos de pensar, de jogar e de falar.
Cem sempre cem modos de escutar as maravilhas de amar.
[...]
A escola e a cultura separam-lhe a cabeça do corpo.
Dizem-lhe: de pensar sem as mãos, de fazer sem a cabeça,
de escutar e de não falar, de compreender sem alegrias,
de amar e de maravilhar-se só na Páscoa e no Natal.
[...]
Dizem-lhe: que o cem não existe.
A criança diz: ao contrário, as cem existem.

Isto é, a fala e a escrita são apenas duas das muitas maneiras de conhecer o mundo. O desenho, a pintura, a modelagem com argila, o teatro de sombras, a música, a dança, a lógica, a geometria, a matemática, a física, a engenharia, o silêncio e o movimento corporal têm igual valor cognitivo e expressivo, desse modo sendo indissociável da razão e da sensibilidade; o pensar e o sentir e a ciência e a arte.

O poema de Lóris Malaguzzi conduz uma metáfora em que as cem linguagens representam as múltiplas inteligências e expressividades criativas das crianças ao estarem em contato com o conhecimento e ao produzirem novos conhecimentos. Não há em seu pensamento a subestimação da infância, comum em pedagogias anteriores. Aqui a infância é plenamente produtora de cultura e ciência. Justamente por isso deve estar ao alcance dela toda a sorte e variedade de instrumentos, ferramentas e incentivos para que comuniquem ao mundo seus pensamentos, sentimentos e sonhos. Por meio da linguagem, assim, comunica-se o simbólico, a leitura espacial corpo-cinestésica, o cognitivo, a ética, a metafísica, a lógica, a imaginação, a crítica, o colaborativismo, a cidadania, a metacognição, entre diversas capacidades cada vez mais importantes e necessárias ao mundo contemporâneo.

De acordo com Lilian Gonshaw Katz, professora e pesquisadora da Universidade de Illinois:

[...] as crianças escolares pré-primárias podem comunicar suas ideias, seus sentimentos, seu entendimento, sua imaginação e suas observações por meio da representação visual muito antes do que os educadores norte-americanos para a primeira infância presumem. As representações impressionantes que as crianças criam podem servir como base para hipóteses, discussões e argumentos, levando a observações adicionais e a representações novas. Usando esta abordagem, podemos entender como a mente das crianças pode ser engajada de maneiras variadas na busca de um entendimento mais profundo do mundo familiar a sua volta. (KATZ, 1999, p. 43).

Para traduzir essa visão na rotina escolar, Reggio Emilia opera sobre pilares muito específicos:

  • O ambiente como terceiro educador;
  • O Atelier e o Atelierista;
  • Progettazione: projetação em vez de programação rígida;
  • Pedagogia da escuta e documentação pedagógica;
  • Participação comunitária e gestão social.

Na Escola Bilíngue Pueri Domus, essa inspiração não se limita ao plano teórico: as coordenações pedagógicas participam periodicamente de imersões e grupos de estudos avançados no próprio Loris Malaguzzi International Centre, na Itália, garantindo que as práticas internacionais mais refinadas estejam vivas no cotidiano de nossas unidades.

Na prática da escola, os princípios de Reggio Emilia se manifestam em quatro pilares estruturantes:

  • A Criança como Sujeito Potente e Protagonista: No Pueri Domus, a criança não é vista como uma “página em branco” que precisa ser preenchida de instruções pelo adulto. Ela é compreendida como um sujeito pleno de direitos, curiosidade, competência e capacidade inata de formular teorias e produzir cultura sobre o mundo ao seu redor.
  • As “Cem Linguagens da Criança”: Loris Malaguzzi nos ensinou que a criança possui cem linguagens para descobrir, pensar, brincar e se expressar — como a pintura, a escultura, a música, o teatro de sombras, a construção espacial, a palavra falada, o movimento e a escrita —, mas que os sistemas escolares convencionais costumam silenciar noventa e nove delas. No Pueri Domus, todas as linguagens têm o mesmo valor no percurso de descoberta.
  • O Espaço Físico como “Terceiro Educador”: Depois da família e dos educadores, o espaço é o terceiro grande mestre. Nossas salas, praças de convivência, parques arborizados e ateliês são cuidadosamente projetados para serem transparentes, acolhedores e provocadores. O uso de luz natural, espelhos e materiais não estruturados (recursos naturais, sementes, tecidos, madeira e sucatas limpas) convida os pequenos a experimentar, transformar e criar livremente.
  • Escuta Ativa e Documentação Pedagógica: O educador escuta atentamente as dúvidas e teorias das crianças e registra seus percursos por meio de fotografias, anotações e transcrições de suas falas. Essa documentação pedagógica não apenas torna a aprendizagem visível para os pais e para os próprios alunos, como serve de bússola para o planejamento dos próximos projetos investigativos.

Quando afirmamos que o Pueri Domus é, por essência e vocação, a Casa da Criança, assumimos um compromisso ético: o de nunca subtrair nenhuma das cem linguagens de nossos estudantes. A curiosidade investigativa semeada nos ateliês da Educação Infantil não se perde com o tempo; ela amadurece, transforma-se no rigor científico do Ensino Fundamental e deságua no pensamento crítico, ético e global que nossos jovens levam para as universidades de ponta e para a vida.